As quatro perguntas que separam um presidente da reeleição

Por Thiago Vidal (*)

 

Desde a adoção do instituto da reeleição, em 1997, nenhum Presidente teve tanta dificuldade em se eleger para um segundo mandato consecutivo quanto parece ter atualmente a Presidente Dilma Rousseff. Obviamente, isso não se deve a reais problemas econômicos, políticos ou sociais, pois, a despeito de eventuais adversidades que eventualmente acometam a dinâmica do governo federal, é notório que o Brasil tem sido bem sucedido na superação de determinados entraves que pudessem colocar em risco a economia brasileira. A dificuldade deve-se, em verdade, à ferrenha campanha incitada por diversos setores, que se valem de uma aparente insatisfação social em relação à qualidade dos serviços públicos, para desqualificar o atual governo com argumentos que pouco ou nada refletem a realidade do País. Apesar das incoerências dos críticos do governo e do desejo popular por mudanças mais profundas – cujo conteúdo parece carecer de conteúdo programático palpável -, fato é que o conjunto dessa frustração social caiu como luva nos programas de governo dos principais partidos de oposição.

 

Além dos questionamentos impostos à qualidade dos serviços públicos – nem sempre de responsabilidade da União, vale recordar -, quatro são as críticas mais comumente dirigidas a Dilma Rousseff: o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), o endividamento da população, a suposta alta da inflação e a elevação consistente das taxas de juros, fatores que, em seu conjunto, determinam o poder de compra do brasileiro. Em que pese a existência de dados positivos, como a redução dos custos de produção, o aumento dos postos de emprego e o êxito de políticas que mantêm o patamar da renda da população, os críticos do governo têm utilizado tais argumentos para desacreditar a conduta da Presidenta à frente do Poder Executivo e tentar, consequentemente, retirar-lhe a reeleição.

 

Em 1980, quando o então Presidente norte-americano Jimmy Carter postulava a reeleição, já se sabia que ele iria às urnas para defender uma gestão que para muitos concidadãos fora pouco entusiasmante: não só estava a inflação consideravelmente maior do que quando tomou posse, em 1977 – passou de 4,8% para 12% -, como o déficit fiscal americano rondava os US$ 59 bilhões. Já o desemprego, que àquela época afetava cerca de 8 milhões de americanos, encontrava-se em 7,7%. Munindo-se desses fatos e ao se dirigir ao povo americano durante o último debate antes da eleição, Ronald Reagan, candidato republicano à Casa Branca, formulou quatro perguntas que certamente contribuíram para a subsequente derrota de Carter: i) “você está melhor, hoje, do que há quatro anos?”; ii) “seu poder de compra está maior do que há quatro anos?”; iii) há mais ou menos desemprego do que há quatro anos?”; e iv) “os Estados Unidos são mais respeitados do que antes?”. Os questionamentos foram curtos e diretos, mas suficientes para, no mínimo, diminuir a quantidade de eleitores indecisos até aquele momento. Ironicamente, em pesquisas ainda hoje realizadas nos Estados Unidos para detectar aqueles que os americanos julgam terem sido os melhores Presidentes do país, Carter e Reagan figuram, respectivamente, dentre os piores e os melhores chefes do executivo federal.

 

Particularidades à parte, Dilma Rousseff encontra-se em posição de desconforto semelhante à vivida por Carter no início da década de 1980. Não porque a candidata petista não tenha o que mostrar ou porque seu governo tenha sido extremamente mal sucedido – pelo contrário -, mas porque, em que pesem as baixas taxas de desemprego no Brasil, as perguntas que Reagan fez aos cidadãos americanos naquela época podem igualmente ser feitas hoje – e o eleitor brasileiro certamente ficará em dúvida ao tentar respondê-las. Além disso, há, ainda, outro contexto em que Dilma Rousseff e Jimmy Carter em muito se assemelham: a capacidade de gestão. Para alguns analistas políticos norte-americanos, a falta de preparo profissional do então Presidente foi determinante para a sua derrota em 1980 – a despeito de seu carisma pessoal. Para muitos brasileiros que criticam a condução do País, a mesma crítica pode ser conferida à Presidente.

 

De fato, os serviços públicos brasileiros não são exemplares e pouco condizem com os bilhões de reais gastos anualmente. Além disso, é forte o sentimento de que alimentos e serviços estão mais caros do que em anos recentes, principalmente nos grandes centros urbanos – ainda que, estatisticamente, tal sensação possa ser rebatida. Some-se a isso o fato de uma parcela considerável da população brasileira enxergar na figura da Presidente da República a responsabilidade por todo e qualquer problema existente no País, ignorando-se, assim, a lógica federativa vigente. Não é de se estranhar, portanto, que os adversários de Dilma Rousseff também redirecionem tais críticas contra a própria Presidente durante a campanha eleitoral.

 

Mas o incômodo causado a Dilma Rousseff é fruto mais de um sentimentalismo exacerbado por parte da população do que propriamente de fatos que possam caracterizar desqualificar o seu governo. Em outras palavras, muitos dos que rechaçam a atual gestão dificilmente se debruçam sobre dados e estatísticas oficiais que embasem seus argumentos. Por outro lado, da mesma forma que a oposição pode utilizar o referido sentimento de mudança para sustentar os quatro questionamentos feitos acima, também pode a Presidente não apenas respondê-los com argumentos concretos, como igualmente usá-los para mostrar ao eleitorado a real situação do País.

 

Para tanto, citem-se alguns poucos exemplos que justifiquem elogios à gestão de Dilma Rousseff: a evolução do poder de compra da população, constatada pelo aumento de 4,1% da massa de rendimento médio do trabalhador – entre fevereiro de 2013 e fevereiro de 2014 -; a queda  do desemprego em 11% na comparação entre o primeiro trimestre de 2013 e o mesmo período em 2014; as reservas internacionais de U$$ 379,1 bilhões; a recente criação do Banco dos Brics e o sucesso na realização da Copa do Mundo de 2014, fatos que demonstram o prestígio inegável do Brasil em âmbito internacional.

 

O Brasil pode repetir o mesmo que ocorreu nos Estados Unidos há mais de 30 anos. Se a oposição logrará êxito ao se valer do difuso sentimento de mudança que parece se fazer presente na sociedade, bem como de táticas eleitorais utilizadas em tempos longínquos, ainda não é possível prever. Mas o potencial de votos em branco, nulos e indecisos que tais ferramentas têm como alvo é, certamente, de grande magnitude e podem, sim, decidir a eleição. Concomitantemente, do outro lado do tabuleiro, cabe à Presidente Dilma Rousseff antever os movimentos dos oposicionistas no xadrez eleitoral e saber defender os seus feitos ao longo de quase quatro anos de governo. Se estatísticas são comumente utilizadas contra o atual governo, e em particular contra a própria Presidente, da mesma forma podem ser utilizadas para trazer o eleitor à luz da razão.

 

(*) Bacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e Assessor Legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.